Route 66‏
por Sérgio Brota, publicado em Fevereiro de 2012

Apetece chamar-lhe a rua principal da América

A estrada é larga e não lhe vejo o fim. Tenho a certeza que terá um derradeiro troço no final destas curvas e contracurvas mas o vento que me esbofeteia a cada milha conquistada apenas me deixa ver este caminho negro a desaparecer por entre as ondas de calor, desfalece como se fosse alimento de outra dimensão, danças ilusórias que só o ardor extremo provoca. As estradas não têm nada fora do normal, veias de asfalto em grandes mapas, sangue que corre no coração dos que amam as suas motos ou os seus carros, tempo que nos faz pensar em futilidades ou ouvir uma boa música.

O calor faz-me sentir dentro de uma imensa fornalha ao percorrer a Estrada 66, a famosa route sixty six, que em tempos já ligou as costas Este e Oeste dos Estados Unidos da América, de Chicago a Los Angeles. Apetece-me chamar-lhe a rua principal da América, que aliás não seria uma expressão descoberta por mim, embora dessa rua restem somente alguns quilómetros espalhados, que no total somaram quase quatro mil. Hoje sobrevivem desarrumados, esquecidos diria eu, mas que aguentam firme e prontos para seduzir no espírito que sempre a caracterizou assim a borracha se chegue à estrada, assim seja vergada ao calor abrasador, à areia e aos que a percorrem como um ritual religioso. Não há nada de fútil aqui, estamos no reino dos cactus gigantes, dos postos de gasolina que surgem da areia como se sorvessem petróleo directamente do jazigo, motéis de neóns luminosos e juke-boxes.

A devoção por esta estrada faz-se dos seus inúmeros mitos, personagens beatificadas por filmes hollywoodescos, músicas e paisagens que inspiraram meio mundo, especialmente nos anos 50 e 60. Sacode-nos da sonolência espiritual, do adormecer que as estradas normais nos causam, não por aborrecimento ou cansaço, mas por falta de impressões ou sensações vivas. Viajo como se houvesse uma dança, um swing entre a máquina, a estrada, a paisagem e eu próprio. Guiar um carro ou uma moto aqui é totalmente diferente. O tempo prolonga-se devagar, a estrada rebola debaixo de nós como um ronronar de prazer, uma meiguice que nos embala e leva a saborear a paisagem, interminável pintura numa tela a céu aberto, só o ar condicionado me dá algum alento e esperança em conseguir chegar ao fim da jornada com vida. Com sorte, o anoitecer trará consigo uma brisa suave. Aí, encosta-se o Mustang vermelho, abre-se a capota e volta-se à estrada.

Artéria de um êxodo, uma busca do american dream ou american way of life, especialmente por famílias de agricultores do midwest que migravam para a Califórnia em busca de melhores condições de vida, a Route 66 começou a ganhar o seu estatuto e a tornar-se num local de procissão de quem buscava as férias e o bom tempo, origem num boom de vendas de automóveis e motos em meados do século XX.

Saindo de Phoenix, Arizona, pela estrada panorâmica em direcção a Sedona, percorre-se um dos cenários mais selvagens dos Estados Unidos. Esculpido pela mestria das águas do rio Colorado, artista de uma paisagem de rocha vermelha, o Grand Canyon equilibra-se em escarpas todo-poderosas e nuvens baixas que se passeiam pelo interior do maior desfiladeiro do mundo. Atravessando dois estados, Utah e Arizona, a dimensão deste rasgo de arte natura é tal que dizem conseguir-se ver os quase quatrocentos e cinquenta quilómetros desde o espaço, um desfiladeiro arrebatador que chega a medir dezasseis quilómetros de largura e dois de profundidade… Chego pela estrada mãe ao Parque Nacional do Grand Canyon pela sua zona mais acessível, o South Rim ou fronteira sul, a poucos quilómetros de Flagstaff ou Williams, as cidades mais perto.

O desfiladeiro está em pleno território Navajo, a tribo índia que sempre aqui habitou e da qual ainda encontro alguns descendentes directos, homens e mulheres que trazem vincadas no rosto as feições avitas, inspiradoras de tantos filmes westerns.

Em viagem até ao parque de Glen Canyon, largo por breves momentos a estrada e sobrevoo o desfiladeiro que recebe as primeiras luzes da manhã de braços abertos, o sol que nasce e que torna o cenário ainda mais vermelho, quente e poderoso. Da pequena avioneta vejo lá bem no fundo a ponte Navajo, ligação das duas orelhas do desfiladeiro que se vão abrindo para sul do lago Powell, um enorme lago de águas azuis que alimenta a população de Page que, como por milagre, desponta dos milhares de quilómetros à nossa volta onde há apenas areia, rocha vermelha, pó… é impressionante e, imagine-se, é até suficiente para poder criar um pequeno campo de golfe no meio do deserto.


TEXTO & FOTOS / SÉRGIO BROTA

 

A forma mais impressionante de conhecer toda esta paisagem é escorregar pelo rio Colorado num barco, fazer um pouco de rafting apesar das águas calmas. Antes disso, uma pequena, mas indispensável, passagem no Anthilope Canyon, um desfiladeiro tão estreito que não seria possível caminharem duas pessoas lado a lado mas pincelado de beleza extrema pela luz que entra nos rasgos no topo da laje, como se nos quisesse apresentar um local ainda mais belo, maquilhada por si própria.


De volta à estrada, paragem obrigatória em Seligman, um ícone na Route 66. Aqui ainda se habita no revivalismo excitado da Route 66 mantendo as bombas de gasolina, os cafés e até os Cadillacs cor-de-rosa (com as jantes cromadas e luzidias) tal como à cinquenta anos atrás. Respira-se a jovialidade imaculada e o rock n’roll de Elvis a tocar nos rádios antigos de um qualquer parapeito de janela. Atrás da carrinha Dodge, de caixa aberta, James Dean (em busto de cartão) convida-nos a entrar na barbearia de Angel Delgadillo. Á entrada, um autocolante colado do lado de dentro da janela pisca-nos o olho, é Marilin Monroe. Do lado de fora, tudo parece intocável e intacto desde à meio século. A velocidade inseparável do stress já desapareceu á muito. Aqui conduz-se devagar e aproveita-se. Aliás, aqui deixamo-nos levar pelas extensas planícies e colinas, já em direcção ao deserto de Mojave, dos índios Mohave, considerados os “verdadeiros americanos”, os indígenas dos Estados Unidos.


Paisagem eleita de Wim Wenders, no Paris-Texas, ou Tarantino, em Kill Bill, percorrem-se quilómetros de vistas largas, estações de serviço míticas como a de Hackberry, árvores Joshua, paisagens do velho oeste, carcaças de velhos carros e roloutes abrem caminho às pick-ups e aos Corvettes vermelhos que passam por nós. É o apogeu da glória de uma velha estrada que definha a cada ano passado.

Apenas o rugir grave das Harleys abalam esta paz, esta união entre o motor, o homem e a paisagem, o sentimento de liberdade e aventura e o sonho de que no fim da estrada estará um futuro melhor. Lembro-me do filme “Easy rider”, o espírito permanece vivo. É verdade que não conduzo uma Harley-Davidson, mas levo com vento na cara na mesma. A estrada é larga e continuo sem lhe ver o fim.

 

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